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Denis Mukwege: "As mulheres não podem continuar lutando sozinhas: os homens precisam entrar na arena"

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Nobel da Paz, Denis Mukwege no Fronteiras POA (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)
Nobel da Paz, Denis Mukwege no Fronteiras POA (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)

O médico congolês Denis Mukwege se tornou ginecologista com o sonho de garantir partos seguros para gestantes e bebês. Acabou conhecido no mundo todo pelas mais de 50 mil cirurgias em vítimas de estupro – em geral para reconstruir genitais dilacerados por tiros, produtos químicos, objetos cortantes ou fogo – realizadas no hospital que fundou 20 anos atrás em seu país.

Prêmio Nobel da Paz em 2018, Mukwege esteve em Porto Alegre na noite desta segunda-feira (19), como convidado do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento.

Dr. Mukwege dividiu com o público gaúcho a sua experiência aterradora, denunciando o silêncio da comunidade internacional em relação aos horrores que ocorrem na República Democrática do Congo (RDC) e lançando um apelo para que os homens se unam à luta pela igualdade de gênero:

"As mulheres são o futuro da humanidade. Escolham a reparação, a Justiça e a masculinidade positiva. As mulheres não podem continuar lutando sozinhas. Os homens precisam entrar na arena. Lanço esse apelo aos homens do Brasil."


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A virada na trajetória de Mukwege foi provocada pela eclosão da guerra civil em seu país, que envolve mais de uma centena de grupos armados e já soma 6 milhões de mortos. Quando o conflito começou, ele trabalhava em um hospital em Lemera, no leste da RDC. Em 1998, um ataque ao estabelecimento resultou em 35 pacientes mortos em suas camas.

Por causa do massacre, o médico fugiu para a cidade de Bukavu e começou a prestar atendimento em tendas, de forma improvisada.

Em 1999, fundou o Hospital de Panzi. A primeira paciente que recebeu foi uma mulher que havia sido estuprada e levara tiros na região da vagina. Com o tempo, cerca de 10 mulheres violentadas chegavam por dia à unidade. Cada uma havia sido atacada por três homens, em média.

O ginecologista enfatiza que, por trás do conflito em seu país, há fortes interesses econômicos, ligados à exploração de recursos naturais valiosos. Ele critica o silêncio da comunidade internacional diante dos horrores e pede às multinacionais que não comprem os "minerais de sangue" que estão por trás da violência.

"As pessoas continuam a ser massacradas todos os dias. Não sabemos por que a comunidade internacional fica em silêncio. Não é uma guerra normal. Não é entre fanáticos religiosos, etnias, Estados. É um combate pelas riquezas minerais."

Mukwege contou que mora dentro do hospital e que é protegido por soldados das Nações Unidas. Considerado o maior especialista do mundo em reparação interna de genitais femininos, ele não consegue se habituar às atrocidades que são cometidas contra suas pacientes. Revolta-se com a impunidade dos perpetradores, mas oferece uma mensagem de paz, de sentido de vida:

"Ainda compartilhamos a mesma humanidade? O que fazer diante de tanta violência? Não há outra escolha a não ser responder com amor."

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Após sua conferência, Denis Mukwege respondeu as perguntas do público e do mediador, o jornalista Daniel Scola. Ainda, a pergunta enviada por vocês, nossos seguidores nas mídias sociais, que são patrocinadas pela Braskem.

Confira esta e outras respostas do Nobel da Paz no palco do Fronteiras Porto Alegre 

Lembre-se: Denis Mukwege é o conferencista do Fronteiras São Paulo desta quarta. Últimos instantes para garantir sua presença neste e nos próximos eventos (Janna Levin, Werner Herzog, Contardo Calligaris e Luc Ferry). Clique aqui para adquirir seu pacote para o Fronteiras São Paulo.

Pergunta Braskem: Muitas vezes, a sociedade espera que as soluções venham dos governos. Mas, a sua atuação é um belo exemplo de que uma iniciativa individual pode mudar a vida de muitas pessoas. Qual foi a sua maior conquista até agora e o seu maior arrependimento nesses anos todos no Congo?

Dr. Denis Mukwege: Eu acho que o grande resultado que eu pude ter nesses anos todos foram as transformações na vida das mulheres que vêm ao Hospital de Panzi. Eu fiquei muito impressionado, eu tenho até dificuldade para entender essas mulheres que chegam em um estado de total destruição, abatidas, humilhadas diante do marido, dos filhos. Frequentemente, eu tenho a impressão de que essas mulheres não têm nenhuma capacidade de recomeçar a vida, nenhuma capacidade de sair dessa situação.

A grande vitória para mim é, com essa ajuda holística, com esse cuidado holístico que nós criamos, que faz com que as mulheres que passam por esse modelo de assistência, elas estão realmente no fim e elas se tornam mulheres fortes, que lutam pelos direitos delas, e das crianças e das comunidades delas. É uma transformação impressionante que reforça a ideia de que as mulheres representam o futuro da nossa humanidade.

E se eu pudesse lamentar alguma coisa, me arrepender de alguma coisa, seria simplesmente o fato de que eu não sei proteger essas mulheres uma vez que elas deixam o hospital. Eu sinto muita dor quando elas partem do hospital fortes, prontas para lutar, e depois caem nas mãos desses mesmos rebeldes que as estupram pela segunda vez. Eu sempre tive um remorso em relação a isso, mas não pode ficar todo mundo no Hospital. Nós temos algumas camas, mas o Hospital não é um vilarejo.

O nosso maior fracasso é em relação à segurança das mulheres que saem do hospital, é vê-las voltarem novamente estupradas.

Denis Mukwege no Fronteiras POA (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)


Dr. Denis Mukwege também respondeu diversas perguntas da plateia e do mediador. Confira as principais respostas abaixo.

Pela sua experiência e vivência, qual a maneira mais efetiva de reduzir a vulnerabilidade de mulheres e crianças em situações de conflito ou de miséria?

Dr. Denis Mukwege: Em todos os conflitos não se pode ver muito bem que são as mulheres, que são essas crianças que pagam os tributos, o preço mais alto. Enquanto os homens lutam, são as mulheres e as crianças que sofrem mais em todos esses combates.

Eu acredito que para reduzir essa vulnerabilidade é preciso investir nas mulheres, porque a experiência com as mulheres mostra que, quando você investe nelas, quando você torna as mulheres autônomas no plano econômico, você resolveu, primeiramente, a questão da educação das crianças.

A primeira prioridade das mulheres em todos os lugares do mundo é a educação de seus filhos. A segunda prioridade é a alimentação das crianças. E, quando você resolve a questão da educação e da alimentação das crianças, você está se projetando no futuro, você está trabalhando pelas gerações do futuro, mas também, quando você investe nas mulheres, você as torna autônomas, você começa a jogar em vários aspectos na luta contra a pobreza.

Resolvendo essas prioridades, você vai ver rapidamente que as mulheres têm capacidade e que elas colocam suas capacidades frequentemente à disposição de toda a comunidade.

Quando você dá autonomia às mulheres, resolve a questão da saúde, da maternidade, diminuindo a mortalidade maternal, quando você capacita essas mulheres, você as torna autônomas em uma sociedade em conflito.  

Quero começar com uma pergunta que diz respeito a sua primeira passagem aqui por Porto Alegre. Em 2010, o senhor esteve aqui e emocionou a plateia com o seu relato, assim como o senhor chamou a atenção para todos os problemas que o seu país vive atualmente. É possível dizer que de 2010 até agora alguma coisa evoluiu, alguma coisa melhorou, ou nós estamos no mesmo patamar que em 2010?

Dr. Denis Mukwege:Muito obrigado. Como eu disse na introdução, estou muito emocionado de estar aqui em Porto Alegre, me sinto realmente em casa. Infelizmente, 10 anos depois eu constato que as coisas não mudaram muito. A única coisa que mudou é que talvez tenha um pouco mais de visibilidade em relação à situação do meu país, mas no plano de mudanças positivas ou de mudanças na vida da sociedade, não tivemos muita evolução.

O prêmio conferido ao senhor no ano passado trouxe algum alento ou algum impacto de transformação no seu país ou nem isso, com a atenção mundial do tamanho do Prêmio Nobel da Paz?

Dr. Denis Mukwege: Com o reconhecimento mundial, efetivamente, acho que hoje nós falamos um pouco mais livremente em relação a essa questão, que sempre foi considerada uma questão tabu no meu país e sempre teve pouca audiência.

Quando a gente descreve o que acontece, o aspecto dessas violências sexuais, que são barbaridades inauditas, não tinha muito público para isso, mas depois que eu recebi o Prêmio Nobel eu tenho a impressão de que há cada vez mais interesse da imprensa e plataformas que querem que a gente explique o que está acontecendo, há uma grande visibilidade.

Quanto à solução dos problemas que se colocam na região dos Grandes Lagos Africanos, acho que ainda estamos muito longe de resolvê-los.  

Quanto ao governo do Congo, diante de tudo isso que o senhor relata, diante de tudo isso que acontece, qual é o papel das autoridades e como eles reagem a essas autoridades no seu país?

Dr. Denis Mukwege: É uma pergunta interessante, porque eu acho que todos os governos têm a responsabilidade de proteger. Isso é o primeiro papel de um governo responsável, é proteger seus cidadãos e os bens desses cidadãos.

Infelizmente, na República Democrática do Congo, o governo que nós temos desde 1996 chegou ao poder pelas armas e esse governo foi constituído por uma fusão de grupos rebeldes. Cada grupo rebelde cometeu crimes de guerra, crimes contra a humanidade, e mesmo crimes de genocídio, e esses crimes todos constam no relatório das Nações Unidas, então são pessoas que cometeram esses crimes que constituíram uma coalizão no poder que dirige hoje a República Democrática do Congo.

O sentido das responsabilidades é muito fraco, porque a cada vez, quando a gente evoca esses crimes, é como se a gente fizesse uma acusação contra as pessoas que estão no poder, ou que tiveram o poder fazendo massacres e crimes odiosos.

Hoje, infelizmente, se não houver justiça internacional para poder intervir em relação ao que acontece na República Democrática do Congo, eu temo que isso possa se prolongar durante muito tempo.  

Ao que o senhor atribui, de certa forma, o silêncio internacional em relação à violência enfrentada no dia a dia no Congo?

Dr. Denis Mukwege: É muito difícil entender que o acordado internacional possa se calar diante de 6 milhões de mortos, 4 milhões de deslocados internos. Nós tínhamos as forças mais importantes das Nações Unidas acompanhando o que passa na República Democrática do Congo, são cerca de 18 mil homens que estão há quase 20 anos lá vendo o que se passa.

A solução não seria sacrificar a justiça no altar da paz, porque 20 anos depois, apesar do uso de todas essas forças, ainda não temos a paz. As pessoas continuam sendo massacradas diariamente.

Esse acordado internacional continua a se calar, podemos lançar hipóteses, mas são apenas hipóteses, não somos capazes de poder explicar o porquê desse silêncio. A única coisa que nós sabemos é que a guerra que se faz na República Democrática do Congo hoje é uma guerra que sai completamente das guerras normais: não é uma guerra entre fanáticos religiosos, não é uma guerra entre etnias diferentes.

Frequentemente, a gente tem a tendência de explicar o que são guerras étnicas, mas lá não é o caso, não é uma guerra étnica, tampouco é uma guerra entre estados, porque nessas disputas, não há disputa de território, é uma guerra pelo controle das riquezas da região leste da República Democrática do Congo, e entre essas riquezas está o coltan, o mineral columbita-tantalita, que é muito importante na fabricação de smartphones e tudo que é eletrônico.

Nós temos necessidade desse mineral, mas, infelizmente, é muito mais fácil de tê-lo pelo contrabando que atravessa as fronteiras sem pagar impostos e pela escravidão humana. A população local tem a escolha de sair dali ou aceitar servir como escravos às forças armadas e trabalhar nas minas por preço de banana.

Outra interpretação é que a vontade de ter esses minerais mais baratos, sem pagar impostos, sem pagar os custos de exploração, faz com que todo mundo feche os olhos por causa dos lucros, e isso é realmente vergonhoso.


(Com informações de Itamar Melo, para a Gaúcha ZH)