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Paul Auster responde: sonhos, meus escritores favoritos e o que é a vida

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Paul Auster foi o conferencista desta semana no Fronteiras do Pensamento 2019. Por conta de uma emergência familiar, o escritor não pôde viajar ao Brasil e participou do evento por meio de videoconferência ao vivo.

Em São Paulo, o escritor norte-americano conversou com o público no Teatro Santander, na quarta-feira (19). A mediação do evento foi feita pelo apresentador, escritor e roteirista Marcelo Tas.

De Nova York, Auster conversou sobre variados tópicos, como os escritores que mais o influenciaram, seus processos de criação, o poder do acaso e sua relação com sua esposa, a premiada escritora Siri Hustvedt.

Em meio às questões de Tas e do público presente, estava a Pergunta Braskem, enviada para Paul Auster por nossos leitores e seguidores nas mídias sociais, patrocinados pela Braskem. Leia abaixo esta e outras respostas do escritor.


Lembre-se: o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento é Roger Scruton. Prepare seus questionamentos para o filósofo britânico, que chega aos palcos do projeto logo mais, já no início de julho.

Paul Auster responde: sonhos, meus escritores favoritos e o que é a vida

Pergunta Braskem: Você afirma ter descoberto sua vocação como escritor já na infância e coloca a literatura como um forte propósito. Ao mesmo tempo em que é um trabalho difícil - embora muitos o considerem fácil. O senhor acha que devemos perseguir os nossos sonhos ou ajustar a rota e os desejos conforme a vida nos apresente?

Paul Auster: Eu diria que são as duas coisas. Primeiramente, porque às vezes você tem um sonho, mas acontece que você não consegue realizar aquele sonho.

Por exemplo, quando eu era jovem, a minha ambição na vida era ser um jogador profissional de basebol. Eu amava basebol, e eu jogava muito. Eu era bem bom.

Quando eu tinha 12, 13, até 14 anos, eu falei: “poxa vida, acho que tenho chance de me tornar profissional”. Quando eu fiquei mais velho, percebi que eu não seria alto o suficiente, nem forte suficiente.

Eu simplesmente não era bom o suficiente, então, eu desisti. Quer dizer, continuei jogando e tal, mas larguei o sonho de ser profissional, porque percebi que seria um desperdício de tempo.

A gente tem que ter um sonho, mas tem que ser um sonho um tanto quanto realista. O realismo de um sonho parece contradição, não é?

Mas, muitas vezes aquilo que você sabe fazer bem, se você continuar se aperfeiçoando, se dedicando, você vai melhorando e melhorando.

Agora, para qualquer coisa ou qualquer sonho, você precisa querer dar duro, porque talento não é suficiente.

Talento é a base de tudo, mas, se você não trabalhar sobre ele, tentar melhorar sempre, você não vai conseguir se desenvolver e vai ficar muito desapontado.

Quem são os seus escritores preferidos e quem são os autores que lhe influenciaram?

Paul Auster: Bom, vamos falar sobre influências primeiro. Eu já pensei sobre isso. Quem teve maior impacto na minha vida, em termos de estilo de prosa, foi Montaigne, o escritor francês do século XVI.

Quando eu era jovem, eu lia em francês cuidadosamente. Há um dinamismo no estilo do Montaigne, uma propulsão que, para mim, é emocionante.

Montaigne foi considerado o primeiro pensador moderno, a primeira pessoa que fez perguntas sobre si mesmo, como nós fazemos hoje em dia. Ele foi fundamental.

O outro escritor (estou indo cronologicamente) seria Cervantes, Miguel de Cervantes. Dom Quixote é o livro dos livros. É um romance que contém todos os romances. É um romance pós-moderno, porque é um livro sobre o livro. É um trabalho extraordinário e nunca envelhece, nunca me canso de reler.

Pulando mais à frente, são tantos, mas acho que o mais importante é Charles Dickens, pela energia da prosa, é tudo sobre energia.

Depois, Dostoiévski e Melville, escritores do século XIX que mais me ensinaram.

No século XX, há uma gama, eu acho que os que mais gosto – não sei se me influenciaram ou não – são três nomes que todo mundo conhece: Kafka, Proust e Joyce.

Aprendi tanto com cada um desses escritores. Depois, há Beckett, que também teve um impacto enorme quando eu era jovem.

Beckett me impactou tanto, que eu não conseguia ir adiante. Eu não sabia se havia alguma maneira de escrever ficção depois de ler Beckett. Foi por isso que eu parei por vários anos. Eu não conseguia imaginar escrever depois dele. São esses, os de prosa, que têm mais significado para mim.

Contemporâneos, vivos, há muitos escritores bons. Acho que algumas pessoas também são meus amigos, então, é difícil separá-los do trabalho deles nesta altura da vida.

Mas, tenho a maior admiração pelo John Coetzee e Don DeLillo. Tenho muita admiração pela minha mulher, Siri Hustvedt.

Minha esposa, que é norueguesa, é uma das maiores escritoras do nosso planeta. Ela ganhou três prêmios agora em maio: um prêmio europeu para um livro que não é ficção (é a quarta mulher em 45 anos que ganhou); o Prêmio Princesa das Astúrias, o mesmo que ganhei há 13 anos atrás (nós somos o primeiro casal que ganhou este prêmio); e ela também ganhou um prêmio muito importante aqui nos Estados Unidos.

Eu tenho tanto orgulho dela e estou muito feliz que o mundo finalmente está olhando para a direção dela, dizendo: “poxa vida, que mulher brilhante que é a Siri”.

Preciso dizer isso para você: nós compartilhamos tudo. Tudo que eu leio, eu leio para ela. Tudo que ela escreve eu leio. Nós comentamos, fazemos sugestões sobre o trabalho.

Nós confiamos tanto um no outro, que eu sempre sigo a sugestão dela, ela sempre tem razão. Eu sempre sigo os conselhos dela.

Acho que ela leva muito a sério meus comentários também, porque, se você acredita no trabalho do outro, você precisa ser honesto. Isso é usar criticismo construtivo.

Mas, precisa sempre começar com admiração e respeito, para depois fazer os comentários. As pessoas dizem “deve ser horrível ser casado com uma escritora”. É o oposto, é maravilhoso.

Quais são suas fontes de referência?

Paul Auster: Não tenho fontes de referência. Essas coisas saem da minha imaginação e das minhas experiências. Cada ficção que um escritor escreve sai de sua própria vida, o que não significa que seja uma autobiografia.

Eu só tenho as minhas experiências sobre as quais eu posso falar, mas, se eu conhecesse uma pessoa há 30 anos, vamos supor que fosse uma pessoa muito egoísta e eu observasse essa pessoa agir. Imaginemos que fosse uma pessoa tão egoísta, que não ligaria a mínima para os outros.... Talvez, um personagem meu, um dia, terá essas qualidades ou defeitos.

É uma representação da pessoa que conheci, mas alguma coisa daquela pessoa vai ganhar um espaço no personagem imaginário, e assim vai. É por isso que eu acho que gostei tanto de trabalhar com atores, porque é uma certa maneira de escrever ficção, é como ser um ator metódico.

Por exemplo, eu já fiquei muito bravo na minha vida, mas nunca fiquei com tanta raiva que quisesse matar alguém.

Nos meus livros, várias vezes os personagens matam outras pessoas e eu nunca matei ninguém. Porém, a raiva pode crescer tanto devido às circunstâncias, que eu poderia fazer uma coisa dessas na ficção.

É assim que funciona minha imaginação e é isso que faz um ator. Os atores que têm o papel de assassino não são assassinos. Mas, para poderem ser convincentes, eles têm que achar uma coisa dentro deles que vai permitir que eles consigam desempenhar um assassino.

É por isso que eu sempre entendi o que os atores me diziam e eles sempre entendiam o que eu dizia, porque é assim que funciona.

Atores amam ouvir a conversa da outra mesa, porque assim eles têm material para usar. Você faz isso?

Paul Auster: É o que escritores de romance fazem a vida inteira. É como se fossem espiões ouvindo os outros. É por isso que nós começamos essa conversa falando sobre telefone celular e smartphones. Eu não quero ficar olhando aquele retângulo, eu quero olhar o ambiente. Quero ver as pessoas. Quero ver o mundo: não quero ficar olhando o telefone.

Como funcionam seus processos criativos? Quando você tem uma ideia, você tem um plano mestre para o seu livro?

Paul Auster: Eu não tenho um plano mestre. Eu sinto um pensamento sobre os personagens e sobre a linguagem do livro que está por vir. Contudo, a música de cada livro é diferente, o ritmo do sentido é o tom da frase.

Eu preciso me treinar quando estou escrevendo um livro, porque cada livro é uma coisa nova.

O trabalho anterior não me ajuda em nada. Eu começo sempre do zero. Então, na verdade, eu não tenho um plano, mas eu tenho o sentido do ritmo, para onde estou indo e, depois, o acaso.

Agora, isso não entra na composição. Preciso me abrir às ideias, mas não escrevo rapidamente, eu não escrevo freneticamente como alguns escritores fazem.

Por 8h de trabalho, se eu conseguir escrever duas páginas, é um dia bom. Fico bem satisfeito se fizer uma página em 8h. Já imaginou quantas vezes eu fico indo e voltando, atacando uma ideia, um parágrafo? Fico indo e voltando.

Mas, gostaria de falar sobre a chance, a oportunidade como elemento da realidade, porque acho algo importante de ser trazido à discussão.

Às vezes, as pessoas acham que eu insisto demais no papel do acaso na vida. Não acho.

Como eu disse, quando eu tinha 14 anos e queria ser jogador de basebol, eu sei o que pode acontecer. É um exemplo horroroso da oportunidade que eu vivenciei.

Coisas imprevistas acontecem com muita regularidade. O acaso é uma coisa que nós não queremos aceitar. Quando ele acontece, nós falamos que não é justo, que não deveria ser assim.

As coisas são assim sim. É sempre o imprevisível. Eu quero falar sobre o mundo em que coisas imprevisíveis fazem parte da composição da realidade.

Nem tudo se resume ao acaso ou à oportunidade. Nós temos o desejo e a vontade. Nós temos a capacidade de tomarmos a decisão. Nós podemos determinar objetivos e olhar para o futuro, fazer um plano.

Por exemplo, você quer ser um médico. Você sabe que você vai ter que estudar muitos anos. Agora, muitas vezes, eu estou interessado em uma pessoa que quer ser médico  e que, de repente, ele está lá e cai uma árvore na cabeça dele. A partir daqui, ele não vai poder ser médico.

Ou, de repente, você está lá na floresta, no bosque passeando, e você fala: “olha é bom ser médico, mas tem outras coisas que posso fazer. Posso ser um palhaço no circo, quem sabe quero ser um palhaço?” É como nos contos de fadas, acho que são as melhores histórias do mundo, nunca me afastei delas.

O que é a vida?

Paul Auster: A vida é movimento. A vida é o que não é inerte. Vida é o pulsar. Vida é um organismo com futuro, embora esse futuro possa ser curto. Vida é o que você quer definir: eu a defino como um organismo que tem um futuro.