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Roger Scruton responde: religião, arte, filosofia e a necessidade de confiança

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“O conservadorismo parte de um sentimento que todas as pessoas maduras compartilham: de que coisas boas podem ser facilmente destruídas, mas não tão facilmente criadas.”

A famosa frase do filósofo britânico Roger Scruton encontrou explicação na sua conferência no Fronteiras do Pensamento São Paulo 2019, nesta quarta-feira (03). Expoentes do pensamento conservador ao longo da história, como o irlandês Edmund Burke e o francês François-René de Chateaubriand, consolidaram boa parte das suas ideias a partir da apreciação da Beleza.

Durante a conferência, Scruton explicou o porquê desta apreciação, uma necessidade de redenção que iniciou na sua infância. A Beleza surge como resultado da busca pela salvação da família, aprisionada por um legado de falta de significado. A história pessoal de Scruton está descrita no link abaixo. Não deixe de ler a emocionante narrativa.

- Roger Scruton: o que minha história me ensinou sobre o Significado da Vida

Em São Paulo, Scruton ainda afirmou que a Beleza tem sido eliminada da vida das pessoas pela ação de instituições como escolas de arte moderna e agências de publicidade. “Os cubos dos edifícios modernistas declaram o fim dos ornamentos. Como acontece nos regimes comunistas, o diálogo pessoal é substituído pelo impessoal”.

O filósofo criticou duramente o comunismo que ele conheceu nos anos 1970 em visitas aos países do Leste Europeu. “As relações de poder estavam acima da responsabilidade de cada um”, lembrou. “Havia uma despersonalização, aprendia-se a não confiar nos outros. Em um mundo inumano, a humanidade aparecia apenas nas fendas.”

Foi justamente durante a Guerra Fria, que Scruton se empenhou pessoalmente no estabelecimento de instituições de ensino em países da Europa Central, que então pertenciam à URSS. Este trabalho em favor da educação, censurada pelo regime, rendeu inúmeros prêmios internacionais ao filósofo.

Sobre os Sentidos da Vida, tema do Fronteiras do Pensamento 2019, Roger Scruton destacou a relevância “da compaixão dos outros por nós, assim como a aceitação”.
 


Segundo ele, o sentido não está em nós mesmos, mas sim nas relações interpessoais: "A redenção não vem do ego; vem do Outro. Isso acontece porque reconhecemos, em nosso ser, que não estamos sozinhos. Nossa salvação é o amor que o outro nos traz."

Após sua fala, o convidado respondeu perguntas do público e do mediador, o Doutor em Filosofia pela USP, Eduardo Wolf. Scruton também respondeu a Pergunta Braskem, enviada por nossos seguidores nas mídias digitais, patrocinadas pela Braskem.

Confira esta e outras respostas do filósofo da Beleza.

Atenção: a próximo conferência do Fronteiras do Pensamento acontece em agosto, com o Nobel da Paz, Dr. Denis Mukwege. Garanta sua presença nos eventos. Além de Mukwege, o Fronteiras ainda receberá Janna Levin, Werner Herzog, Contardo Calligaris e Luc Ferry.

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Roger Scruton, ao vivo, sobre os sentidos da vida, no Fronteiras do Pensamento São Paulo. #fronteiras2019 #sentidosdavida#fronteirasdopensamento#pensamento #conservadorismo#pensamentoconservador#rogerscuton #beleza #filosofia #política #arte #estética #moral
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Pergunta Braskem: A respeito da espiritualidade, vejo em suas obras uma visão ampla de religiões, citando inclusive o budismo. No entanto, em entrevistas e artigos, aponta sempre o catolicismo como resposta. Em sua visão, somente o cristianismo pode responder à necessidade espiritual do homem contemporâneo?

Roger Scruton: Excelente pergunta. Eu sou um amigo natural da religião, porque a vejo como fundamental ao que nós somos. Sem ela, um componente importante do nosso ser é perdido.

Eu sou cristão, sou membro da igreja anglicana, que é uma instituição notável. Aliás, qualquer pessoa pode ser anglicana, desde que não faça nada ofensivo como manifestar uma crença.

Mas, persistimos nessa espécie de cristianismo cético, há duzentos ou trezentos anos no meu país. Não é a mesma coisa que o catolicismo daqui, claro.

Nós, no mundo moderno, especialmente na Europa, chegamos à conclusão de que estamos vivendo lado a lado com o Islã. O Islã tem muitas coisas que nós invejamos, como uma resposta para certas vidas.

A pergunta que venho debatendo, o sentido da vida, talvez não seja importante para um muçulmano, quando ele diz: “Deus nos deu o sentido da vida, está aqui no Corão”.

Nós não pensamos assim como cristãos, especialmente cristãos que passaram pelo Iluminismo. Para nós, há a dúvida e o debate.

Eu gosto desta experiência iluminista e quero encontrar uma maneira de viver neste mundo, em que eu esteja em contato com as minhas experiências religiosas fundamentais, mas também incorporando um pouco do ceticismo do Iluminismo.

Acho que a nossa cultura faz isso. Acho que vocês, na América do Sul, também desenvolveram uma cultura similar.

A sua fala foi muito emocionante, especialmente por envolver um relato pessoal que, quem conhece sua obra, vai identificar de alguns dos seus livros e reflexões. Durante o período da vida que o senhor descreveu hoje para nós, alguma coisa foi capaz de oferecer, naquele momento, consolação? A filosofia, a música, as relações pessoais, alguma coisa foi capaz de lhe consolar?

Roger Scruton: Sempre procurei consolo na arte, na literatura e na música. Isso começou muito cedo na minha vida, quando eu tinha 15 ou 16 anos. Devo confessar que as relações pessoais vieram em segundo lugar. Em decorrência disso, nunca foram tão bem-sucedidas quanto deveriam.

Mas, por outro lado, arte, literatura e música só fazem sentido no contexto humano. Assim, em última instância, elas nos levam à relação com os outros, que são necessárias, mas eu levei muito tempo para encontrar o tipo de paz que todos nós buscamos.

A Filosofia foi uma espécie de subproduto do meu amor pela arte. Eu reconheço isso especialmente na música, que é uma fonte de grande reflexão e grande emoção. Eu me pergunto: como isso é possível? E essa é uma pergunta filosófica. Então, isso me levou automaticamente à Filosofia. Então, fui pra Cambridge, estudei Filosofia e fiquei fascinado por ela. 

Na sua avaliação, por qual motivo a arquitetura moderna abandonou séculos de conhecimento adquirido para criar edifícios de aço, concreto e vidro, com janelas que não podem ser abertas?

Roger Scruton: É um grande mistério! Mas, uma das características interessantes de nossa civilização é que nós não apenas ganhamos conhecimento, mas nós também o perdemos.

As janelas são um exemplo perfeito disso. Que invenção fantástica essa coisa através da qual vem a luz, que você pode abrir para deixar o ar entrar, fechá-la. Dá uma aparência humana à fachada, o que torna o edifício como se fosse um amigo ao seu lado, em vez de algo que o domina.

As janelas são uma invenção fantástica, mas os arquitetos perderam esse conhecimento em um ano.

Claro, nós temos que lembrar que passamos por grandes transições demográficas, especialmente aqui no Brasil, com todas as pessoas vindo para as cidades.

Então, vocês tiveram que construir grandes edifícios para acomodar essas pessoas, mas é muito difícil manter a atitude da arquitetura como “algo que se encaixa no seu ambiente” quando você tem que tomar medidas de emergência para acomodar as pessoas.

Portanto, eu não responsabilizo arquitetos e urbanistas totalmente, mas seria bom se eles reconhecessem essas necessidades.

Como diferenciar conservadorismo, nos termos que o senhor entende, e reacionarismo ou extremismos, como tem por vezes surgido no mundo contemporâneo?

Roger Scruton: Essa é uma pergunta muito importante. O conservadorismo não é uma única coisa. Pessoas diferentes em regiões diferentes do mundo têm visões diferentes do que devem conservar.

Nós, na Grã-Bretanha, sobretudo na Inglaterra, temos uma tradição política extraordinária: o parlamento, o direito consuetudinário e a monarquia são instituições muito eficazes que funcionam há mil anos. Mas, é muito fácil dizer que o conservador deve ser favorável a isso especificamente. Você deve mantê-lo, adaptá-lo, ajustá-lo, mas mantê-lo como parte de sua herança, legado e a cultura que acompanha.

Agora, o extremismo que preocupa vem quando se acabou o institucional, a existência política e social da pessoa. Se você não tem, por exemplo, o debate parlamentar da legislação dos tribunais de direito consuetudinário, se isso não existir, evidentemente, para um conceito que o espírito do povo é esse, pode ser perigoso, como aconteceu na Alemanha no século XX.

Há sempre o risco de se diminuir as instituições. Quando isso acontece, há sempre o perigo de deslizar para posições extremistas.

Não é apenas um perigo para as pessoas da direita, mas um perigo para as de esquerda também. Foi o que nós vimos no experimento soviético: eles tinham instituições da lei, não muito boas, mas existiam. O direito romano era muito poderoso na Rússia, eles tinham a disposição hierárquica de papeis e cargos no Estado, mas tudo isso foi eliminado... E tudo se tornou um experimento em extremismo.

Na América Latina, vocês viram a esquerda recaindo em formas extremistas e violentas, justamente porque não há ideia de quais deveriam ser os instrumentos de compromisso.

Para mim, política é compromisso, é debate entre pessoas que discordam. Você precisa de instituições que permitam que elas convivam, embora discordem, como a maioria de nós faz com nossos colegas, no fim das contas. 

É necessário cultivar instituições, ter hábitos democráticos, hábitos de compromisso político, de respeito ao pluralismo para poder ter instituições efetivamente democráticas e plurais?

Como fica a tarefa dos países e das sociedades que, ao contrário da Inglaterra e do Reino Unido, não têm, na sua origem, essas instituições e essas práticas, mas precisam construí-las? Como é possível trabalhar como um construtor nesse sentido contemporâneo?

Roger Scruton: A primeira coisa que temos que construir é confiança. A condição natural de pessoas que se reúnem para discutir questões políticas é a falta de confiança. Nós não confiamos nos outros.

Construir confiança entre gente que discorda é muito difícil. A única coisa que eu posso dizer é que é um processo longo e a liderança ajuda. Isso se houver um líder capaz de dizer “olha, nós temos que tomar uma decisão coletiva”.

Nesse processo, a confiança emerge. Estamos vendo isso acontecer no leste da Europa. 30 anos depois do final do comunismo, finalmente as pessoas estão começando a criar instituições em que direita e esquerda podem pertencer. Liberais, socialistas. Portanto, há esperança.

O Brasil é um bom exemplo de que as pessoas querem confiar umas nas outras, mas, como tiveram experiências negativas, ao longo do tempo essa confiança vai surgir.