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Valter Hugo Mãe responde a Pergunta Braskem: a relação com a academia e a ideia de transcendência

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Valter Hugo Mãe (foto: Luiz  Munhoz/Fronteiras do Pensamento)
Valter Hugo Mãe (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)

Valter Hugo Mãe chegou ao Fronteiras do Pensamento Porto Alegre desta segunda-feira (03) para uma conferência diferenciada. O escritor subiu ao palco e sentou em uma poltrona perto da plateia, pois havia pedido para estar mais próximo do público.

Ao lado do mediador, o filósofo Eduardo Wolf, Valter Hugo Mãe (ou Valter, como pediu para ser chamado) emocionou o Salão de Atos da UFRGS lotado com sua humanidade e com seus pensamentos. Como não poderia deixar de ser, a estética que caracteriza os escritos de Mãe também é qualidade de sua fala, sequências de frases que, facilmente, se passariam por versos. Ao público, o escritor alternou o texto A síndrome do bom rapaz, escrito por ele especialmente para o encontro no Fronteiras do Pensamento, com passagens de sua vida e com ideias que surgiam conforme o desenrolar da conversa:

“Tomei nota de umas ideias num texto para esta comunicação inicial. É um texto estranhíssimo e inédito que escrevi para ler hoje e, antes de ler o texto, eu quero dizer algumas coisas: estou muito convencido, e meus livros já têm mostrado isso, de que a justificação para nós está nos outros. Ninguém encontra uma justificação para sua vida dentro de si mesmo. Nós intuímos as coisas em nós mesmos, mas é preciso lembrar que a palavra 'justificação' vem de justiça. Justificar significa mostrar porque é justo. Aquilo que faz com que seja justo enfrentarmos a vida são os outros. Precisamos acabar com essa tirania da individualidade."

Ao longo da noite, a “tirania da individualidade" foi sendo demolida e a ideia da identidade enquanto coletiva foi sendo construída, seja nas histórias contadas pelo convidado seja pela interação emotiva que gerou no público. Assim, em vez de refletir sobre Como viver juntos, o desafio apresentado pelo Fronteiras 2015, Hugo Mãe propôs: “não há como não viver juntos. Não há. Não se pode atingir a humanidade na profunda solidão."

Após sua fala, Hugo Mãe respondeu as perguntas do público, dentre elas, a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nas mídias digitais. Desta vez, a pergunta selecionada veio de um grande admirador do autor, Rodrigo Tomé:

Rodrigo Tomé: Em entrevista, você disse que iniciou sua carreira como romancista a partir de uma angústia: a impossibilidade de escrever um projeto de mestrado. Pessoalmente, li todos os seus romances, estou cursando o mestrado por conta dessas leituras e minha dissertação será sobre um de seus romances, O filho de mil homens. Queria saber como é atualmente sua relação com academia e como você percebe a recepção de sua obra pela crítica especializada?
Valter Hugo Mãe: A minha relação com a academia é terrível. Eu quero fazer um doutoramento agora, um doutorado, como vocês dizem, e eu tenho até vergonha, porque eu estou tão defasado do que as pessoas que estudam continuamente sabem. Eu fico tão perdido.

Tenho vergonha, porque as pessoas sabem que eu sou escritor, algumas estudaram minhas obras. Como eu vou entrar na universidade e ser idiota? (risos) Eu vou ter uma turma, eu vou ter uma classe e depois eu faço uma pergunta ridícula para a professora? É insuportável. As pessoas vão ficar pondo no Facebook, 'Valter Hugo Mãe perguntou a coisa mais ridícula que passou na academia do Porto.' (risos)

Enquanto escritor, a gente fica muito visto, deixa de ser um estudante com direito à ignorância. O escritor perde o direito à ignorância. As pessoas perguntam tudo, qualquer coisa, como se eu soubesse. (risos e aplausos da plateia). Isso é muito duro. Muitas das vezes a gente volta pra casa muito embaixo, se perguntando 'será que eu devia saber?', 'será que eu devia ter estudado aquilo mesmo?', 'será que eu devia ter lido aquele livro?'

Eu posso dar um exemplo de uma situação em que eu fiquei envergonhado, mas só percebi a vergonha depois. Um jornalista, aqui no Brasil, perguntou, depois de ler meu romance o remorso de baltazar serapião, o que eu achava do Vidas secas. E eu disse... É... Eu não li. (risos) Eu tenho de achar alguma coisa? Eu não li. E eu fico tão desiludido. A cara do jornalista foi assim, 'nossa, mas você é só um idiota. Como você não leu Vidas secas?' (risos) E eu me senti tão humilhado, que eu pensei que havia qualquer coisa que eu precisava resolver. Eu comprei Vidas secas urgentemente, fui ler e... Senti mais vergonha ainda. Como é que eu não li o Vidas secas? Como posso ter tido a ousadia de publicar um livro no Brasil sem ter lido o Vidas secas?

Mas é isto, eu provavelmente vou ter esta ignorância sobre muita coisa que vocês conhecem e que eu não vou conhecer nunca, mesmo depois do doutorado.

Em outra pergunta, Eduardo Wolf questionou Valter Hugo Mãe sobre a questão da transcendência, muito forte em seu primeiro romance, o nosso reino, e reforçada logo no início de sua fala, quando contou à plateia que teve uma doença crônica e grave nas mãos quando criança, doença esta que só foi curada após sua tia o levar para ver São Bento em uma capela. Teria sido este episódio, diz Hugo Mãe, que o levou a se tornar um bom rapaz, devido à gratidão pela cura. Veja abaixo:

Você abriu sua conferência lembrando um episódio muito anedótico e folclórico em certo sentido da sua vida pessoal, mas também evocando um tipo de presença de temas de deus e da transcendência na sua vida. No entanto, não parece bastar como o sentido da vida que você anunciou e no qual sua fala quase tocaria. Qual o lugar dessa transcendência, então, se ela não consegue nos dar essa resposta?
Valter Hugo Mãe: Acho que não podemos justificar a nossa presença no além. Seria quase injusto que a experiência de estarmos aqui valesse só depois da morte. Como se precisássemos morrer para criar uma espécie de satisfação ou de equilíbrio. Eu acho que isso é completamente o contrário do que nos compete. A gente tem que conquistar, que angustiar-se com essa busca antes.

Eu vejo a morte como uma grande oportunidade. A morte, das duas uma: ou nos vai levar à transcendência e nós vamos todos viver felizes nas nuvens, numa temperatura parecida com a do Brasil, onde o inverno é ótimo... Ou existe essa transcendência de fato e alguém nos espera eventualmente ou, então, não existe rigorosamente nada e nós vamos sossegar absolutamente, porque a gente não vai ter mais angústia, não vai ter nada, a gente não vai ter, não vai ser.

Por isso, a morte parece-me sempre uma coisa que nós tememos porque ela não nos está revelada, mas eu não tenho dúvida que ela só pode ser isto. Ou não é rigorosamente nada e por isso não dói, não vai doer estar morto – um morto não sofre mais – ou, então, existe uma transcendência e ela tem que ser absolutamente maravilhosa.

Como alguém que precisa de respostas e que procura respostas, começar a escrever ao encontro da transcendência me pareceu quase inevitável. E muito devido à minha biografia e àquilo que as pessoas esperavam de mim. Era inevitável. A primeira pessoa que eu queria convocar era deus. A primeira pessoa que eu precisava que estivesse diante de mim, que se responsabilizasse pelas respostas que eu procurava era deus.

Por isso, o nosso reino, meu primeiro romance, é todo uma espécie de provocação a deus e, ao mesmo tempo, é um ganho de consciência, de que, antes de convocar deus, nós precisamos convocar os homens. Eu costumo dizer que a gente só tem legitimidade para acreditar em deus depois de acreditar nos homens, porque esse é de fato nosso desafio.


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