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Vik Muniz responde: pontos de vista sobre o sistema de financiamento cultural brasileiro

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O papel da arte em meio à guerra cultural, falhas e acertos no sistema de financiamento cultural brasileiro, censura, educação e empatia foram alguns dos temas articulados pelo artista plástico Vik Muniz, durante o debate de abertura do ciclo de conferências do Fronteiras do Pensamento em 2018, realizado na noite de ontem (16), em São Paulo.

Na conferência, Vik Muniz e Fernanda Torres responderam às perguntas do público e do mediador, o filósofo e curador-assistente do Fronteiras, Eduardo Wolf. Dentre elas, estava a Pergunta Braskem, enviada por nossos seguidores nos canais digitais. Confira abaixo:

A cultura é o primeiro item a ser sacrificado em períodos de crise. E, em países como o Brasil, ela está muito atrelada a incentivos públicos. O senhor defende que a arte deve ser acessível e não sinônimo de erudição. O que mais pode ser feito neste sentido?

Essa é uma pergunta complexa, porque ela pode ser vista a partir de muitas vertentes. Você pode falar a verdade, mas aquela verdade vai ser diferente de acordo com o lugar do qual você está observando. Um artista americano chamado Carl Andre diz que o país que não oferece banheiros públicos não tem necessidade de oferecer arte pública. Se você vê as coisas por esse lado, é difícil argumentar.

Há uma frase que é erroneamente atribuída a Winston Churchill e que é boa mesmo assim. Alguém chegou para ele e disse: “A gente vai ter que fechar os museus e teatros para economizar dinheiro para a guerra”, e o Churchill respondeu que se acabassem com a cultura, os soldados não saberiam por que estavam lutando. Isso é bonito, e é justamente o contrário da coisa do banheiro público.

Eu tenho uma convicção de que o nosso sistema de financiamento cultural é deficiente e está sendo explorado de formas que não são as ideais. Acho que a Lei Rouanet foi uma coisa muito boa. Lembro que, antes da lei, qualquer livraria era como a livraria do aeroporto, que só tem livros de autoajuda. Era difícil, por que você não achava nada. Hoje, você vai à qualquer livraria no Rio de Janeiro e acha uma gama de títulos. Mas, é óbvio que existem abusos, exatamente por isso é que deveria ter um órgão só para observar a evolução de uma lei que é tão complexa. A arte é o maior mercado do mundo que não é regulamentado. Se você mexe com dinheiro, você vai ter que lidar com isso.

É engraçado, porque geralmente o artista é aquele canário que o cara leva para a mina de carvão. Se o artista morrer, está na hora de ir embora. Há uns anos atrás, em 2007, eles levaram o canário e quem morreu foi a mula. Foi aí que esse mercado da arte começou a provar que era muito mais forte do que outros mercados, principalmente pelo fato dele poder ser explorado dessa forma.

No Brasil, acredito que a Lei Rouanet ainda é uma boa ideia, mas ela tem que ser elaborada, porque não podem haver filtros de natureza política e corporativa. Hoje, as próprias instituições têm seus curadores e tudo mais, então elas conseguem estabelecer os contextos que são ideais às políticas daquela própria instituição. Isso não poderia acontecer. Se você vai dar dinheiro, esse dinheiro tem que ser canalizado para fundos específicos e tem que haver uma liberdade. Obviamente isso cria problemas, por que você pode estar dando dinheiro pra coisas com as quais você não concorda. O que é também é um direito, porque você não precisa financiar uma produção artística que você acha ruim, ou que você não está de acordo com aquilo que está sendo dito. Eu nunca tive muito problema com isso, porque eu faço arte que a minha mãe gosta. Eu tento criar um tipo de arte que consiga impressionar o diretor do museu e o cara que limpa o museu.

Confira também a resposta da Pergunta Braskem Porto Alegre, em que o artista comentou sobre seu trabalho na bienal de Veneza e sobre a questão dos refugiados, tema também trabalho pelo artista Ai Weiwei, um dos convidados desta temporada do Fronteiras do Pensamento.

Vik Muniz também respondeu outras perguntas do público presente no Teatro Santander. Veja abaixo o que o artista plástico tem a dizer sobre censura, educação e o fenômeno da crise migratória.

Censura

Eu já fui muito criticado por fazer uma arte acessível e isso é engraçado, porque a acessibilidade deveria ser uma vantagem.

Quanto à proposta dos trabalhos passarem por uma crítica prévia, contanto que todo mundo veja antes de decidir, está tudo certo. Podem criticar, mas todo mundo tem que ver. A ideia de censura tem um aspecto positivo e um aspecto negativo. Quando todo mundo é artista, fotógrafo, escritor, todo mundo é censor. Contanto que cada um tenha a sua própria censura, está tudo bem.

Educação para a arte

A maioria das pessoas acha que ciência é mais importante do que a arte e isso está no currículo das escolas. A razão disso é porque, quando você pensa em ciência, você pensa primeiro na pesquisa, que é o que a valoriza. A aplicação da ciência é demonizada por muita gente, pois a pesquisa é a coisa mais importante para a ciência. Na arte, acontece justamente o contrário: as pessoas valorizam as aplicações, para que serve a arte e aquilo que a torna popular e agradável. Quanto à pesquisa, as pessoas não são educadas para imaginar essa parte como algo importante dentro da prática da arte.

No momento que você conseguir transmitir que existem dois tipos de prática artística, uma delas relacionada talvez com esse mainstream de você criar coisas que são mais envolventes, mas existem grupos de artistas que pelo fato de estarem lidando de uma maneira geralmente precária com assuntos e com matérias, é esse pessoal que vai dar continuidade para qualquer tipo de narrativa de desenvolvimento artístico.

Se não tiver uma pessoa ali cutucando, fazendo coisa que não deve fazer, ou criando polêmica, desconforto – esse desconforto é essencial para o desenvolvimento. Mas a gente não vê isso na arte como vê na ciência. A pesquisa na arte é vista como algo negativo.

Empatia na compreensão da crise imigratória

Estou desenhando um projeto que se chama Painting by numbers que é para acontecer em campos de refugiados em Bangladesh, na Jordânia e na Grécia. O principal quando se pensa em refugiados hoje em dia, e talvez tenha sido diferente em outros tempos, é que a gente sempre pensa em números. O que acontece agora é que estamos trocando uma visão de mundo que era baseada em aspectos qualitativos, por um mundo que é baseado em aspectos quantitativos. Até em arte isso acontece.

Antigamente, uma pintura era uma obra de arte que você olhava, discutia. Hoje não: é quanto custa e quantos likes tem no Instagram. A gente já está acostumado a ver as coisas em termos numéricos. Você não tem um rosto, uma cara. Uma vez que você conhece um refugiado, quando as pessoas se conhecem, as coisas mudam e acha-se uma forma. A gente não pode mudar a maneira como as coisas estão crescendo, ou mudar esses fluxos, mas a gente pode trabalhar a empatia. E isso é um pouco desse projeto: você criar um nome, contar uma história.