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Jared Diamond: o que perde ou salva uma civilização?

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Crédito da Imagem: 
Constantinos Kollias / Unsplash
Crédito da Imagem: Constantinos Kollias / Unsplash

Por Carlos André Moreira*

Biólogo de formação, o americano Jared Diamond vem se dedicando desde os anos 1990 a estabelecer um nicho no campo da ciência histórica que ele próprio chama de “História Humana”, mas que não seria inapropriado definir como “Estudo de Civilizações Comparadas”. Manejando os fundamentos da geografia e da história em par com ferramentas de outras ciências como linguística, antropologia, arqueologia, paleontologia e mesmo a biologia evolutiva, Diamond analisa a trajetória de diferentes civilizações e as compara para chegar a conclusões amplas sobre o que levou determinados aglomerados humanos à ascensão, à queda, às disparidades, à dominação ou à submissão. É um caminho pelo qual Diamond enveredou – após anos dedicados ao estudo da ecologia e da fauna aviária – em um livro que o tornou um best-seller: "Armas, Germes e Aço: os Destinos das Sociedades Humanas" (Editora Record), lançado em 1997, laureado com o Prêmio Pulitzer e constantemente reeditado desde então. O biólogo abre a programação do Fronteiras do Pensamento 2021 – Era da Reconexão, no dia 25 de agosto (Inscrições AQUI). 

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Armas, germes e aço

Em "Armas, Germes e Aço”, Diamond realiza um longo estudo de casos para responder a uma questão feita a ele anos antes por um amigo, um político da Nova Guiné, e que pode ser assim parafraseada: por que foram os europeus que chegaram à Nova Guiné com a vantagem de toda a sua evolução tecnológica e dominaram o local, e não o contrário? É a esta pergunta que Diamond tenta responder por meio de uma análise que passeia por tópicos como a diversidade tecnológica e social das ilhas da Polinésia, os choques históricos de civilizações como os que opôs espanhóis e povos americanos nativos e habitantes da Eurásia e da África. Ele também faz uma retrospectiva comparativa do desenvolvimento tecnológico entre as sociedades de diferentes regiões e continentes. 

Diamond utiliza o método de comparação para iluminar transformações radicais que ocorreram de modo desigual em um período relativamente breve da história humana. Até o fim da última Era Glacial, cerca de 11.000 anos antes de Cristo, todos os povos de todos os continentes eram caçadores-coletores de alimentos. Entre 11000 a.C. e 1500 d.C, diferentes ritmos de desenvolvimento nos vários continentes resultaram nas desigualdades tecnológicas e políticas existentes em 1500. Enquanto os aborígenes australianos e muitos nativos americanos continuavam caçadores-coletores, a maior parte da Eurásia e boa parte das Américas e da África subsaariana desenvolveram gradualmente a agricultura, a criação de gado, a metalurgia e organizações políticas complexas, escreve ele. 

Ao contrário do que se poderia pensar, a resposta não é dada no título do livro. A tríade de termos “Armas, Germes e Aço” é mais um diagnóstico inicial: os povos eurasianos tinham melhor tecnologia bélica e militar, armas e proteções mais eficazes, eram resistentes a infecções virais para as quais os nativos de suas novas terras não tinham qualquer defesa. Tinham também uma melhor tecnologia de transporte que permitiu que fossem eles os aventureiros a cruzar continentes e não os demais povos. Essas são explicações simples e já bem conhecidas. O livro de Diamond se dedica ao levantamento minucioso de hipóteses para explicar por que foram os povos eurasianos os beneficiados específicos, antes e depois, por esse conjunto de circunstâncias. 

Temporada 2021

AMBIENTE 

O estudo empreendido por Diamond para a criação de “Armas, Germes e Aço” foi realizado em um terreno ideologicamente movediço. Avaliações da disparidade tecnológica e econômica entre as sociedades de origem eurasiana e as de qualquer outro recanto do globo não eram novidade nos anos 1990, estavam mais para um constrangimento de tempos passados, uma vez que tais análises, de modo aparentemente inevitável, levavam a conclusões racistas: o intelecto dos eurasianos, suas sociedades definidas como “civilizadas” em contraponto ao ‘barbarismo” dos outros povos “primitivos” eram conclusões decorrentes desse tipo de análise e foram inclusive as bases para mais de um século de teorias que iam com alarmante facilidade do racismo pseudocientífico ao eugenismo. 

Ao abordar os mesmos temas, Diamond faz questão de ressaltar ao longo do caminho que explicações biológicas racialistas não são a chave para a questão. O centro de seu argumento neste livro recai sobre o ambiente. Para ele, o papel da geografia e do ambiente circundante foi fundamental para que algumas sociedades florescessem, criassem tecnologia mais desenvolvida e estivessem em condições de impor domínio territorial ou cultural sobre as demais. 

Colapso

Um dos elementos que fizeram a diferença, argumenta Diamond, foi a própria dimensão territorial do que se poderia chamar de “Eurásia”: vastas extensões de terra com riqueza de vegetação nutriente para seus primeiros grupos de caçadores-coletores e com uma gama ampla de espécies animais de grande porte em condições de serem domesticadas no período posterior ao desenvolvimento da agricultura nessas diferentes sociedades. Mais alimentos produzidos para populações maiores facilitaram o tipo de excedente produtivo que permite a existência de indivíduos dedicados a outros afazeres que não a simples luta pela sobrevivência, amplificando as possibilidades de surgirem entre esses povos criadores e inventores de novos processos. Talvez por isso muitas sociedades das ilhas da Oceania permaneceram num sistema de caça e coleta até basicamente a Idade Moderna. 

O fato de que o mesmo território amplo da Eurásia oferecia relativa facilidade de deslocamento sem muitos obstáculos naturais intransponíveis também é apresentado como uma explicação para o desenvolvimento tecnológico desigual dessas regiões em detrimento de outras: uma grande variedade de sociedades em competição provocou a influência contínua de uma população sobre a outra, cada uma absorvendo gradativamente inovações implementadas pelas outras. No vasto território das Américas, por exemplo, populações igualmente numerosas não tiveram contato real, funcionando como continentes menores vagamente isolados, o que impediu a troca de experiências e tecnologia que talvez tivesse feito a grande diferença (parte importante de sua narrativa é a captura de Atahualpa por Pizarro, ocorrida num momento pós-guerra civil que encontrou o imenso império incaico dividido e enfraquecido e com nativos numerosos usando vestes acolchoadas e armas contundentes como machados e tacapes contra as espadas e as armaduras dos espanhóis). 

Reviravolta

O livro, contudo, não trata a ascensão europeia como inevitável. Até o início das grandes navegações, boa parte das inovações e contribuições para a evolução comum, aponta ele, não veio da estagnada Europa pós-Império Romano, mas do Oriente Extremo, China principalmente, e do Crescente Dourado. É a expansão em direção às terras das Américas que garante à Europa seu status colonialista enquanto as outras regiões atingiram o limite possível para sua expansão num cenário de ecologia comprometida (no Crescente Fértil) ou de luta pelo poder levando a equívocos decisivos na bem-desenvolvida empreitada naval chinesa (paralisada por questões políticas). 

“Armas, Germes e Aço” estabeleceu as bases para o reconhecimento internacional do trabalho de Diamond, ao qual ele daria sequência empregando o mesmo método para analisar comparativamente por que as civilizações chegam ao fim e desabam em consequência de suas escolhas em pontos cruciais de sua história, em “Colapso” (2005), e que motivos levaram civilizações bem-sucedidas a contornar momentos decisivos de crise, em “Reviravolta” (2019). Seu alentado “O Mundo até Ontem” (2012) usa o mesmo método para tentar apontar as lições que as civilizações do presente podem tirar de sociedades tradicionais como os aborígenes do Pacífico, os inuítes, os índios da Amazônia ou o povo do deserto Kalahari em matérias como educação ou resolução de conflitos. 

Diamond lapidou ao longo dessa trajetória um olhar agudo sobre o quanto escolhas decisivas feitas por povos em relação a seu ambiente ou à potencialidade de seus recursos representaram a diferença entre ascensão, sobrevivência ou ruína. Um conhecimento muito útil em um momento em que a sociedade do presente está diante de uma encruzilhada dramática para o futuro de sua própria vida no planeta. 

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*Carlos André Moreira é jornalista, crítico literário e editor do canal e blog Admirável Mundo Livro