"Em 30 anos, a humanidade será uma nova coisa, não mais o que a gente é"

Postado em jun. de 2022

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"Em 30 anos, a humanidade será uma nova coisa, não mais o que a gente é"

Seres humanos se misturarão a máquinas – e vice-versa. Essa é uma das projeções de Martha Gabriel, que fará uma das 12 conferências da Temporada 2022.


Martha Gabriel é reconhecida como uma das pensadoras digitais mais influentes do Brasil. É professora de Inteligência Artificial na PUC-SP e professora visitante no Insper. É mestre e doutora em Artes pela ECA-USP, com graduação em engenheira civil e especializações em design gráfico, marketing e comunicação, além de formação executiva no MIT Sloan School of Management. Ela é uma das conferencistas da Temporada 2022 do Fronteiras do Pensamento - Tecnologias para a vida. Os pacotes de ingressos já estão à venda pelo site

Em entrevista para ao Jornal Zero Hora (Edição de 12 de maio 2022), Martha Gabriel defende que, a partir da união homo sapiens-máquina, poderemos viver para sempre. Embora pareça ficção científica, esse cenário já é perceptível, segundo ela, no uso de impressoras 3D para reprodução de órgãos humanos. E, nos próximos anos, teremos uma transformação mais profunda do que nos últimos 2 mil anos. Abaixo, destacamos algumas ideias compartilhadas por ela.

Um estudo de uma universidade britânica estima que a inteligência artificial deve atingir o nível humano em quatro décadas. O que a gente viu nesses últimos dois, três anos, foi uma superaceleração. É impressionante o grau com que as máquinas têm evoluído, em termos de inteligência e de funcionalidades que complementam as nossas. Estamos começando a sentir a ponta do iceberg daquilo que será o ser humano se misturando com as máquinas. Não teremos futuro sem nos misturarmos com as máquinas.

Não há como sobreviver a esse ritmo de mudança estonteante se não incorporarmos a máquina. O humano não consegue. Em termos de comparação, o biológico demora centenas, às vezes milhares de anos para mudar, para o próximo passo de evolução. Com a tecnologia, a gente pode hackear essa evolução, colocando funcionalidades na gente, imediatamente. Um exemplo é o projeto de Elon Musk (dono da Tesla e da SpaceX e que comprou o Twitter) de conectar o cérebro ao computador. É para daqui a 10 ou 15 anos. Já temos hoje impressora 3D, que imprime nariz, olho, coração. Isso está sendo implementado para consertar órgãos que as pessoas queiram. Isso leva a gente a outro patamar. Tanto que “humanidade” será um novo termo. Será uma nova coisa, não mais o que a gente é.

Implicações morais e éticas

 

Tem uma coisa que se chama de “responsable AI” (inteligência artificial responsável). Basicamente, são diretrizes para garantir que decisões sejam explicáveis. Ou seja, a máquina tomou uma decisão, mas como e por que ela chegou a isso. Caso contrário, a gente não consegue saber se aquela decisão foi justa ou não. Outra questão é focar no ser humano. Para que isso ocorra, todas as pessoas envolvidas no desenvolvimento dessas tecnologias e dos dados têm de validá-los. Para mim, esse é o principal desafio.


Vou muito aos EUA, a eventos que tratam de moral e ética da inteligência artificial. Todas as big techs tratam disso. Mas uma vez eu falei o seguinte: “A gente precisa incluir todos os grupos para que consigamos garantir moral e ética em inteligência artificial. Esses eventos não poderiam estar nos EUA, pois é caríssimo chegar ao Vale do Silício. Tinham de ser na África, no sertão do Brasil, na América Latina, em algum lugar pobre, para que a gente possa ouvir todas as vozes”. Porque apenas nós, elite do desenvolvimento, ficarmos discutindo o que é e o que não é bom também é antiético.


Quando a gente fala de inteligência artificial, há alguns níveis de vieses. Um é esse, do programador. Não precisa nem ser um programador, porque a inteligência artificial não se programa, mas há o algoritmo. E ele, o algoritmo, sempre tem algum objetivo. Tem alguém lá que tem um objetivo, uma visão de mundo fazendo aquilo. Independentemente da pessoa ou do grupo de pessoas que desenvolveu o algoritmo, no sistema de machine learning, a máquina aprende com dados. Esses dados já estão no mundo, e eles já são enviesados. A gente sabe que não temos um mundo justo. Há muitos problemas de dados, nos quais as decisões não são as mais justas possíveis. A gente está tentando corrigir isso como humanidade: garantir que os dados com os quais essas máquinas aprendem também sejam de boa qualidade, não enviesados.


Há um terceiro desafio: da estrutura social, que já exclui um monte de gente dessa discussão. Você tem hierarquia e estrutura sociais, que não permitem que as pessoas sejam ouvidas nas outras duas dimensões. E ainda tem a dimensão da educação, para que as pessoas consigam fazer parte dessa conversa. Por isso, está havendo tanta discussão, tantos eventos: para se tentar criar um acordo mundial para garantir moral e ética em inteligência artificial.

O grande gargalo aqui é o futuro da humanidade. Porque, se você não garantir isso, a gente provavelmente vai ter distorções. Amáquina está evoluindo superrápido, enquanto a gente, não. Se você não garantir que a máquina evolua na nossa direção para que seja centrada no humano, trazendo uma vida melhor para todos nós, teremos um problema muito grande de sustentabilidade e catástrofes futuras.

 

Obras


Martha Gabriel é autora de quase uma dezena de livros, como os best-sellers Marketing na Era Digital e Educ@r: a (r)evolução digital na educação e Você, eu e os robôs. Inteligência Artificial: do Zero ao Metaverso, lançado pela Ed. Atlas, em 2022, é seu mais recente livro.


Na obra, ela defende que Entender o que é a inteligência artificial (IA), bem como seu impacto na vida humana e as oportunidades e ameaças que ela proporciona é o maior poder que alguém pode desbloquear para se preparar para o futuro – a ampliação da nossa própria inteligência. Por isso, IA é, e continuará sendo, uma das principais tendências e um dos temas mais populares no mundo atual, ocupando manchetes diárias de todo tipo de mídia, em meio a discussões acaloradas, entre utopias e distopias, racionalidade e emoção, ciência e opinião.

Apesar da sua importância e do interesse crescente, infelizmente a IA está entre os assuntos menos compreendidos da atualidade. A maioria dos livros que abordam esse tema possuem linguagem muito técnica e, além disso, circular um alto grau de desinformação na internet, o que dificulta a educação de leigos sobre o tema. Então, é exatamente por isso que este livro foi escrito: para explicar de forma simples, não técnica, em linguagem didática, para qualquer pessoa, de todas as idades e formações, o que é a IA, a sua importância e como ela pode nos ajudar ou prejudicar.

As máquinas nos servirão para sempre ou vão nos dominar? Essa nova forma de inteligência está nos levando para o caminho da redenção ou da escravidão? Quais são as verdadeiras ameaças e oportunidades que a IA nos proporciona? Essas são algumas das perguntas que esse livro responde, ilustrando a leitura por meio de exemplos e casos reais de aplicação.

Você, Eu e os Robôs – Como se transformar no profissional digital do futuro (Ed Atlas), finalista do Prêmio Jabuti em 2019, é um guia de sobrevivência para que qualquer pessoa consiga compreender a Revolução Digital que vivemos e os seus impactos na humanidade, nas suas mais diversas dimensões — como biológica, social, econômica —, nos auxiliando a caminhar pela principal transformação humana desde o surgimento do Homo Sapiens.

Escrito em linguagem simples e objetiva, o livro parte das questões sociais e valores essenciais que requerem atenção urgente nesse cenário tecnológico fervilhante, para, a seguir, nos conduzir às discussões sobre o estado da arte da transformação tecnológica no planeta, concluindo com tendências e cenários possíveis e prováveis para a nossa evolução e vislumbre de um futuro próximo. Assim, temas como o trabalho, educação, privacidade, ética, filtros, pós-verdade, fake news, pensamento crítico, criatividade, inteligência artificial, robótica, convívio homem-máquina, entre outros, permeiam a obra.

Em seu Educ@r – A (r)evolução digital na educação (Ed Saraiva, 2013), um dos finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Educação, ela desvenda como a evolução das tecnologias digitais de informação e comunicação tem transformado profundamente a sociedade em todas as suas dimensões, inclusive a educação. Considerando isso, este livro apresenta e discute dois importantes aspectos que afetam profundamente a educação tradicional. O primeiro aspecto abordado são as mudanças causadas pela disseminação e penetração das plataformas e tecnologias digitais na sociedade, o segundo são os impactos dessas mudanças na educação e as possibilidades que as plataformas e tecnologias digitais apresentam.

Esse novo panorama repleto de possibilidades, conexões e ampliação do potencial humano, traz também profundas transformações e, consequentemente, novos desafios. A Era da Informação está dando lugar à Era da Inovação e com isso questionamentos surgem: como deve ser a educação na era digital? Que desafios e oportunidades ela nos traz?

O professor exerce um papel essencial nesse novo mundo digital, não mais como um “provedor de conteúdos”, mas funcionando como um catalisador de reflexões e conexões para seus alunos nesse ambiente mais complexo, que também é mais rico e poderoso. A intenção é auxiliar os professores a se sentirem preparados para continuar acompanhando as tendências e possibilidades que surgirão.

 

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Martha Gabriel

Martha Gabriel

Pensadora digital

Uma das pensadoras digitais mais influentes do Brasil.
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